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domingo, 17 de maio de 2009

Operação Solução Alheia

            Esta semana voltei a surfar após três meses fora. Sentado numa prancha no mar a vista da cidade é única. Imagino que somente uma fração dos que moram nesta cidade a conhecem assim. Mas mesmo diante das belas sombras dos prédios da Vieira Souto que estampam a praia, não consegui evitar certa tristeza. A floresta dos dois irmãos, que há dois anos adornam o logo deste blog, está desaparecendo rapidamente.

                A favelização do espaço urbano que já devastou alguns dos mais lindos- sem dizer mais caros- pontos da cidade, agora sobe os pés dos irmãos como uma gangrena irreversivel. A vista do calçadão ou mesmo da praia, não mostra o real agravo.

Me pergunto, a fiscalização é realmente tão precária que não é possível impedir as construções? Existe fiscalização? Diante deste quadro começo a concordar com a ideia dos muros que encantou tantos cariocas.

            Mas talvez antes de simpatizarmos com medidas tão drásticas, deveríamos ter uma segunda opinião. Afinal sem conhecimento não tem planejamento, e sem os dois nenhuma ação renderá frutos. Pode ser por pura ignorância, mas não consigo pensar em país algum que tenha lidado com uma situação destas, pelo menos com qualquer sucesso. Não é como a solução das bicicletas de Paris que o Sergio Cabral pôde copiar (dá inveja os problemas deles). Nesta linha de pensamento concebi a Operação Solução Alheia (a PF já tomou os nomes bons).

            Na primeira etapa da operação mandaríamos alguns milhares de brasileiros gradualmente aos EUA. Sugiro entrada pela fronteira do México, afinal qualquer coisa entra por lá, menos mexicanos. Tinha pensado numa lista especifica de candidatos, mas creio que o STF precise de um presidente para funcionar, portanto podem ir os servidores públicos, que aparentemente é o que não falta por estas partes, especialmente no senado. Ao chegar, nossos brasileiros tomariam o morro de Hollywood. Lá secariam suas roupas nas celebres letras que vigiam a cidade, montariam seus barracos, e teriam as tarefas de devastar a mata e ocasionalmente perderem umas balas- quantia a ser definida pelo Ministério de Planejamento, Orçamento, e Gestão. Claro, tudo financiado pelo bolsa família. Pronto, agora é só observar.

            Uma equipe mista de sociólogos e parentes de políticos (necessários em qualquer projeto brasileiro) vão analisar como os Estates lidam com o problema, detalhando cada passo num dossiê, muito como o da Dilma. E vapt-vupt!!! Teremos nossa solução.

            No final das contas é só imitar o que fazem lá. Afinal, esta estratégia já antiga tem dado tão certo aqui...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O Vôo da Crise

 Assistindo uma cena de Aviator, filme sobre a vida de Howard Hughes, me surgiu um paralelo entre palavras atribuídas ao magnata e a crise financeira. Na cena Hughes está sendo bombardeado pela retórica da família de Katherine Hepburn. Se defendendo à instigação da mãe da atriz, que ostenta que a família não se importa com dinheiro, diz, “somente porque você sempre o teve.”
    Hughes chegou à beira da falência varias vezes nos seus primeiros anos. E a resposta, verídica ou não, resume bem o caráter do homem, apelidado de Aviador, que durante sua vida trabalhou assiduamente, apesar de ter herdado um império. Mas além da perspectiva que dá sobre Hughes, a frase também aponta à realidade de uma classe e seu comportamento.
    Paul Krugman em artigo para o New York Times recentemente escreveu que os problemas dos EUA estão enraizados no endividamento do povo e sua falta de liquidez. Também adverte que as recentes tentativas da massa de economizar podem levar a uma queda na demanda de consumo. Concordo, mas proponho que esta queda talvez seja inevitável, por outras razoes.
    Descoberto há 500 anos, os EUA é um país novo. Foram cria de um mundo em evolução rápida e substancial. Muito como Hughes, que foi entregue uma fortuna aos 19, o fim da segunda guerra mundial entregou controle financeiro/político do mundo às mãos de um país então adolescente. E apesar de terem controlado o mundo por décadas, a ultima foi marcada por sucessivas derrotas.
    Grandes crises em nossas vidas tendem a nos amadurecer, e com o passar dos anos o Aviador aprendeu a ser eficiente com seus gastos e tomar riscos calculados enquanto construía a maior fortuna de seu tempo. Foi jogado à adultidade cedo e surgiu um homem. Veremos agora que destino terá sua pátria.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Mr. Jackson pt.1



No interesse de espaço preciso dividir esta crônica em duas partes. Portanto acredito que o texto abaixo já diz muito e portanto não sei quando retornarei a ele para finaliza-lo. Acabo de terminar um livro chamado American Lion: Andrew Jackson in the White House. Jackson como se sabe foi um presidente pouco popular dos EUA. Gostaria de transcrever um trecho (traduzido) do livro, escrito por John Meacham, aqui. A priori, prefiro me abster de opinar, potanto deixo a reflexão ao leitor.

...Jackson ... se deparou com um caso onde um homem, Russel Bean, tinha cortado as orelhas de uma criança durante um episodio de embriaguez. O xerife local temia Bean, que se recusava a aparecer no tribunal. ‘Russel Bean recusa a se entregar.’ o xerife disse a Jackson, que mais tarde contou o caso a Henry Lee. Com isso Jackson ficou surpreso e informou ao servidor que ‘tal resposta era absurda e não poderia ser aceita, o criminoso tinha que ser preso, e que o xerife tinha o direito de coordenar uma posse comitatus (quadrilha) para ajuda-lo a aplicar a lei.’ O xerife o pediu que se juntasse à posse. Se armando, Jackson concordou. ‘Estarei contigo para ver que cumpras teu dever’ ele disse ao xerife que o levou à cidade onde Bean ‘armado com uma faca e um cinturão de pistolas’ estava ‘se gabando de sua superioridade à lei e entretendo o povo com instigações e reflexões sobre a covardia do xerife e a timidez do tribunal.’ E foi então que o tribunal- na pele de Jackson- apareceu. ‘Agora se entregue seu vilão infernal, neste instante, disse Jackson, ou irei te deixar furado.’
Desinflado pela presença de Jackson...Bean... largou suas armas. ‘ Eu me renderei ao senhor, mas a nenhum outro’ disse Bean.
Jackson as vezes era temperamental e insensato, mas aqui, num pequeno pedaço de Tenessee, nós vemos a tremenda confiança que os outros tinham nele durante momentos de perigo, e o respeito que sua coragem inspirava em seus adversários. ‘Quando há perigo presente, não posso correr dele’ Jackson contou a Rachel (sua esposa). Ele se dispunha a fazer aquilo que os outros não faziam- ou não conseguiam. Num mundo de ameaças, esta disposição o tornava um herói, uma figura central, alguém em qual se podia depender.”

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Desgraças Semelhantes

    A administração é uma arte. Um grande administrador deve considerar sempre seus objetivos e encontrar um meio termo que agrade todos os lados. Isso as vezes requer a humildade de aceitar pequenas derrotas, ou rever suas políticas anteriores. É assim que defino, pessoalmente, a administração exemplar.    

    Há um mês atrás sentado em um chalé de esqui nos Alpes italianos, eu chorava profusamente. Mudando o canal freneticamente entre a CNN, France24, e a BBC assistia imagens privilegiadas do Massacre em Gaza. Chamo-as de privilegiadas pois nem todos os paises do mundo contam com tantos veículos de comunicação com agencias próprias. Por isso muitos não puderam ver a realidade do episodio. 
    O governo Israelense tem tomado a posição de que a invasão e bombardeio de gaza, que matou tantas crianças, mulheres, e civis em geral, foi um sucesso. Pergunto: Como? Mil vezes, como? Fiquei calado sobre esse assunto durante semanas aqui no blog por temer que minha emoção distorcesse impedisse um discurso objetivo. E por mais que receio ser atacado como isso ou aquilo por minhas opiniões, os recentes discursos de Tzipi Livni não me permitem continuar calado. A ministra de Relações Exteriores ousou exclamar que “a vitória” de Israel deveria servir como um exemplo do que pode ser feito no Oriente Médio. Não posso concordar. Nos meus olhos a tal vitória foi nada mais que um holocausto. O extermínio sistemático durante vinte e tantos dias de uma população que ao passar das décadas foi cada vez mais encurralada em um pequeno território. Tudo isso às mãos de um povo que a pouco tempo sofreu desgraças semelhantes. Como disse Churchill “independente da beleza da estratégia, ocasionalmente deveria se olhar o resultado.” Até onde a lógica pode intervir no bom senso.    Não pretendo defender as violências cometidas pelo Hamas. Muito menos saber como resolver as cicatrizes que sobraram de tantas injustiças cometidas pelos dois lados. Mas me ocorre que não se passa de uma questão administrativa. Acredito que Israel deveria agir como a democracia mais experiente que é, e chegar a um acordo mutuamente agradável para resolver este conflito. Enquanto não enxergarem que o convívio sustentável (termo que deveria ser redundante por principio) se baseia no equilíbrio de satisfação, a paz continuará sendo um sonho. A boa administração requer cedências.
    Diante do discurso da ministra e as recentes ações prefiro me abster de opinar muito além do que já fiz, e assim fecharei o texto relembrando dois ditados. O primeiro do jornalista G.K. Chesterton direciono a tantos veículos do mundo que compraram um lado do conflito cegamente. “Falácia não deixa de ser falácia somente por virar moda”. E por ultimo algo dito pelo ex-presidente dos Estados Unidos Andrew Jackson, “Um homem de valor defende aquilo em que acredita, mas requer um homem ligeiramente melhor do que este para ceder imediatamente e sem restrição quando esteja errado.”

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

MendigoChic e o FashionRio




    Com o virar de cada ano, o Tempo adquire novos sentidos. Quando era jovem um dia parecia eterno, hoje uma semana pode passar despercebida. Aos oitenta como será? Por isso decidi tentar coisas novas este ano. Para aqueles que me conhecem é obvio que não sei nada de Fashion (como fica aparente no meu estilo MendigoChic: havas e roupas aos pedaços). Mas como frequentei o primeiro dia do Fashion Rio este ano, pensei “que forma mais adequada de começar algo novo, do que sabendo nada.”
    Algumas coisas me espantaram, além das roupas de alguns também freqüentadores, e por isso decidi colocar aqui o que presenciei.
    Primeiramente, como jornalista, ou pelo menos pretendente, fiquei chocado em ver dentro do Lounge do Jornal do Brasil, um agradecimento à NET que até onde eu saiba é da Globo. A Globalização está realmente funcionando, pelo menos no Brasil.
    Também fiquei espantado com o Lounge do Caderno Ela, talvez uma das publicações mais prestigiosas a terem um Lounge, que estava um forno durante as primeiras horas do evento.
    O que mais me espantou, porém, foi a fila da primeira passarela que foi de uma marca para crianças. No primeiro verdadeiro sol de verão que tivemos no Rio este ano dezenas de pessoas aguardavam ansiosos. Nunca poderia ter imaginado que existia tanta demanda por coleções de roupas de criança. Mas aparentemente, como fui informado por minha amiga e grande jornalista, Julia Morales (http://nossoarmario.blogspot.com), a quem fico muito grato por ter me ajudado a penetrar o evento, o mercado de roupa infante-juvenil no Rio cresce muito.
    Coincidentemente tive uma idéia. Já que a taxa de donos de cachorro no rio é o dobro da taxa de pais, talvez seria um mercado interessante também...camisas do flamengo, chapéus caninos, etc. Procuro investidores.
    Mas eu que nada sei do assunto e até ontem pouco me interessava admito que estava levando o evento meio na farra, observando as beldades presentes, e desfrutando o ambiente agradável da Marina da Gloria. Isso foi até que começou o primeiro desfile. Congelei. As luzes apagaram. O baixo reverberando na tenda. De repente as luzes da passarela acendem e a primeira modelo deslumbra como uma estatua animada. O ambiente, as pessoas, o glamour... eletrizante!!!
    Fora algumas coisas risíveis talvez por algum preconceito meu ou pura ignorância, achei o evento super-interessante. Um tribo realmente diferente daquilo que imaginava pela mídia.
    Com isso encero minha primeira nova experiência de 2009. Foi proveitosa pois aprendi algo. E sei que se algum dia ouvir as criticas levianas e costumarias sobre este mundo peculiar, defenderei aquilo que posso. Claro, ainda me vestindo como um MendigoChic.

domingo, 9 de novembro de 2008

Mãos Dadas

       Meu cachorro acredita que minhas mãos são independentes. Talvez por ser minha esquerda que o alisa da minha poltrona de domingo, enquanto leio os diários. Ou quer por minha direita ser mais proeminente na hora de castiga-lo. Com tempo meu ‘pequeno diabólico’, como gosto de chama-lo quando come meus sapatos, aprendeu a diferenciar, e agora evita a ultima por completo.
       Dizem por ai que o Candidato do Mundo ganhou esta semana. O Nosso Candidato como estão chamando. Acredito, mas pergunto o que é um homem se não um resumo de todas suas decisões e ações. Algumas publicas, outras nem tanto. Nada se define num momento ou numa palavra, existem sempre dois lados, uma foto vale por mil palavras... e outras frases esvaziadas.
       Vemos um ícone surgir das cinzas de um país que a décadas começa ( declarar não, aí seria serio) guerras e manipula acordos econômicos para sua própria vantagem, em detrimento daqueles que diz ajudar. Mas não quero interromper a euforia do mundo. Os analistas dizem que o mundo mudou. A unilateralidade que brotou na década de 90 morreu, e uma nova era esta prestes a nascer. Acreditam também o fim do neoliberalismo. Pelo menos defendem essas idéias em seus editoriais.
       Nós como sempre acreditamos e esperamos a mudança anunciada. Celebramos as eleições sem sequer saber as posições dos candidatos. E até quando sabemos, será que sabemos mesmo?
       Não duvido em alguns valores de Obama, e se votasse nos EUA teria votado nele. Sei por exemplo que ele será mais pragmático com o mundo do que seu antecessor. Também não sei como poderia ser menos. Especialmente diante das atuais crises. Mas lembro sempre que um Presidente deve ser um servidor ao seu povo. E por mais que se elegeu um homem de Mudança, será que as industrias, que há um século definem a política externa dos EUA, mudarão com ele? Espero que sim, há tempo. Mas a regra do jogo é lucro, e isso ainda não mudou.
       As empresas continuarão querendo menos regulamentação e burocracia para poderem competir com as Chinas e Índias do mundo. E nós, cidadãos comuns, não veremos estes incentivos refletirem nos preços. Um Presidente é um produto. Produto dos desejos das empresas, da economia, e dos cidadãos. Lamentavelmente nesta ordem. Será que o Nosso candidato nos olhará com o mesmo carinho que seus compatriotas na próxima reunião financeira? Ou até no dia-a-dia?
        Não pretendo ser um cínico. Se bem que sou, confesso. Mas existem horas quando nada é tão claro. As linhas ficam obscuras e o que passa por cinismo pode ser nada mais que bom realismo. Tal é o caso com meu cachorro. Por mais que ele se esconde da mão direita, não enxerga que a esquerda é fruto da mesma raiz. Quais serão as raízes de Nosso candidato? E com que mão será que ele regerá?

domingo, 17 de agosto de 2008

Geórgia e os fantasmas


        No meio das recentes confusões que ocorrem no Cáucaso, e o potencial de futuros imbróglios no leste europeu, fui obrigado a retomar a crônica semanal. Abafo? Talvez.
Todos sabemos que houve alguma coisa na Geórgia recentemente. Para os que crêem que não passou de uma escaramuça, receio informar que constou de uma Guerra. Breve, mas guerra.
             Primeiramente, fiquei pasmo com a decisão do Presidente da Geórgia. Um pais do tamanho de um caroço de azeitona que decide atacar uma área sob proteção de uma das maiores potencias militares do mundo, se não for heroísmo, é, simplesmente, idiotice- talvez os dois. Mas não consegui passar deste ponto sem analisar melhor. Realmente, nada na carreira de Mikheil Saakashvili o retrata como um homem que atenta ao heroísmo, muito menos à lastimável situação de idiota. Mas então porque esta jogada?
             Certos jornalistas americanos estão convencidos que Mikheil não imaginava tamanha reação. Minha premonição, porem, é outra. Somente com garantias de reforços militares, ou de apoio da comunidade internacional, que um país com um orçamento militar menor que aquele que o estado do Rio destina à manutenção de pingüins, se aventuraria em tamanha enroscada. Mas ninguém apoiou. A comunidade sentou nas mãos e assistiu a Geórgia ser bombardeada. Logicamente só podemos deduzir que houve um apoio falso. Talvez, até intencionado a outros propósitos. Um grande escritor me ensinou a considerar sempre no jornalismo a questão chave: Qui Prodest?
            Então, quem se beneficiaria? Seria os Estados Unidos, que a 18 meses tentam instalar um escudo de defesa em solo polonês. As negociações sofreram por meses devido à indisponibilidade dos “Estates” de acomodar aos pedidos dos poloneses por armamento americano. O negocio acaba de ser fechado, porém, deixando os poloneses com uma, isso mesmo, somente uma arma de defesa. Claro, não é nada pequeno, mas trata-se de menos da metade da quantidade de armas que os poloneses requeriam. Um ataque russo à Geórgia poderia botar os poloneses aflitos, sendo que ambos são ex-países satélites da Rússia. Talvez aflitos o suficiente para ceder uma base de defesa americana em solo nacional, assim se aliando contra uma futura invasão russa. Mas, será que instalar um escudo na região é motivo suficiente para instigar uma guerra? É, talvez não.
             Mas então quem mais se beneficiaria com esta guerra? Talvez foram os ucranianos, que vendo o eventual retorno da Republica Autônoma de Criméia ao controle russo, decidiram atrair o foco do mundo para o Cáucaso? Claro, poderia ser dito que Criméia não fica no Cáucaso. Mas estrategicamente Criméia é um grande beneficio aos ucranianos. Recentemente, os russos deixaram bem claro ao mundo, quando cortaram a energia ucraniana, que petróleo na Ucrânia é um mercado russo. A Criméia por ser um porto autônomo, pode receber o petróleo Britânico que passa pela Geórgia, e a Turquia, e consequentemente repassar aos ucranianos sem deixar os russos alterados. Portanto, a conquista da republica autônoma de Crimeia, onde o idioma oficial é russo e 70% dos cidadãos são de fato russos, seria interessante para a Rússia. Mas os russos não poderiam simplesmente tomar controle da Crimeia sem alguma resposta do mundo. Só, claro se ninguém soubesse o que estava acontecendo. A África serve de exemplo que o mundo fecha os olhos se não houver interesse internacional. Por isso pergunto: Será que atrair atenção mundial ao Cáucaso e aos ex-satélites da Rússia beneficiaria os ucranianos? E será que este interesse seria suficiente para instigar guerra? Talvez não.
             Sou acusado constantemente de adorar uma boa conspiração. É verdade. Admito. Mas com boa razão, pois acontece que a maioria das conspirações que ouvimos e descartamos acabam anos depois, sendo confirmadas como fato. E o que me parece verdade é que alguém assegurou o presidente da Geórgia que eles teriam apoio militar caso tentassem tomar a Ossétia do Sul. Mesmo assim, não pretendo saber definitivamente o que aconteceu na Geórgia, e muito menos saber como aconteceu.
             Existe a possibilidade do presidente da Geórgia ter realmente subestimado tanto a reação da Rússia? Existe, concedo. Somente não me parece provável. As possibilidades são infinitas. Muitas nações se beneficiaram, e ainda se beneficiarão com a Guerra da Geórgia, menos, claro, a Geórgia.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Desvendado pela Essência

    Em pleno ano eleitoral o debate da divulgação de listas sobre candidatos com “fichas sujas” tem dominado os diários. Espantoso para quem achava que vivia num país democrático? Nem tanto. De qualquer forma o debate criou seus personagens. De um lado, o protagonista Roberto Wider, presidente do TRE, defende a divulgação de listas e barragem de candidatos sujos. Do outro, protegendo a não divulgação de listas e o direito de qualquer um se candidatar, está nosso antagonista, e presidente do STJ, Gilmar Mendes. Já que defender qualquer político no Brasil sempre acaba sendo um suicídio de credibilidade, prefiro falar hoje sobre o ultimo.
    Indagado esta semana sobre as listas, Mendes respondeu ter “horror de populismo”. O que isso pode ter a ver com a divulgação de listas sobre as vidas pregressas de nossos futuros candidatos, ainda não entendi. Será que alguém entendeu? Mas o tchutchuca Mendes não parou por aí, ainda declarou que não podia estar a favor destes tipos de listas porque teme que “graves injustiças” podem ser cometidas!!! Será que estou sozinho em não compreender a lógica nesta frase? Ou será que novamente se trata de proteger os políticos e que os cidadãos se virem...
    Tenho há algum tempo notado que nossos governantes, dos três poderes, têm uma tendência a serem bastante prudentes com qualquer coisa que os limite. Por outro lado, quando se trata do povo, também usam extrema cautela, como no caso da cratera que abriu na minha rua há mais de quatro meses,, que ainda esta sendo “contemplada”. Coesão sem coerência.
    É uma desgraça o presidente do Supremo Tribunal Federal estar tão distante da realidade brasileira. Se Gilmar acordasse aos fatos da união, entenderia que as “Graves Injustiças” são cometidas sim, todos os dias, mas são contra o povo, nunca contra políticos. Uma busca rápida na historia da justiça do pais, começando nos dias em que o Pai do nosso querido ex-presidente e agora senador Collor, assassinou um homem dentro do plenário do Senado, sem conseqüências penais, até hoje nos tempos de Renan Calheiros e Álvaro Lins, revelaria muito a Gilmar. Mas acredito que o pobrezinho não esteja pensando em tais trivialidades. Afinal, como que um funcionário público pode estar antenado à realidade do povo brasileiro com um salário de 24 mil reais mensais?
    Talvez sou um palhaço por acreditar que os políticos, juizes, policiais, e todo o resto do esqueleto brasileiro trabalha para o povo. São, afinal, contratados e eleitos para liderar o pais à gloria. Obviamente tenho assistido muito HBO, e os princípios do positivismo, que aprendi durante minha formação, devem ter ressonado em mim mais do que naqueles que pretendem erguer nossa bandeira. Mesmo assim estou bastante disposto, Sr. Mendes, a deixar alguns políticos sofrerem injustiças este ano. Prefiro assim do que ler nos jornais por mais um ano sobre os desvios de dinheiro público, enquanto todas as instituições sociais (hospitais, educação etc.) ficam abandonadas ao destino. A capacidade dos nossos políticos de defraudarem o sistema é matéria para premio NOBEL. Desculpem o desvio, mas imagina se usassem esta habilidade ao favor do cidadão...
    Quando criança ouvi um perola que até hoje regurgito com freqüência. “A vida é cheia de momentos definitivos. Quando se enfrenta tais momentos, ou você define o momento, ou o momento te define.” Esta semana, meu querido Gilmar, o momento te definiu.

domingo, 22 de junho de 2008

Cidade Desfocada

     Essa semana a cidade ferveu com indignação diante da atitude dos militares que entregaram três meninos nas mãos de traficantes rivais. A atitude destes poucos homens foi tão significante ao país, aparentemente, que até o Ministro da Defesa veio ao Rio de Janeiro pedir desculpas pessoalmente às famílias das vitimas. Sinto pelas mães, pais e irmãos destes três. Mas o que me horroriza é o que leio sobre o caso. O medo que sinto é pelo resto de nós.
     Ao ler nos jornais frases tão impactantes como “o que o exercito fez foi matar os garotos” fiquei pasmo. A impressão é de que a cidade condena a ação dos militares, enquanto isenta os traficantes. Parece que o trafico é uma existência inquestionável, uma instituição brasileira. Mas ao pesquisar e ler algumas das opiniões pela internet, se vê uma linha negra no chão que divide a opinião publica. Indignação? Sim, mas dos dois lados. Enquanto a população dos morros protesta e conclama a saída do exercito, no asfalto a musica é diferente.
     Ao olhar as opiniões em sites como o Globo Online (oglobo.globo.com para quem esteve em coma durantes os últimos anos), a indignação do público é justamente com a falta de ação militar em seus bairros. “Bota os militares aqui no Leme” grita um internauta. “Se eles não ficarem na Providência, manda para a Tijuca que agradeceremos” registrou outro.
     O carioca da Zona Sul não entende como a morte de três rapazes ligados ao trafico pode ser algo nefasto. Tenho que admitir que também não entendo como com tantas pessoas inocentes sendo assassinadas no Rio de Janeiro diariamente a morte de três traficantes, ou envolvidos, possa ser questão para primeira pagina de jornal. Pelo menos no sentido negativo.
     A frieza com que trato o assunto não é a reflexão de uma alma endurecida. Nem é a vontade mavórtica de um “Anti-Favelista”. Existe, pela primeira vez desde que eu voltei a viver no Rio de Janeiro, uma manifestação pública de confronto de opinião. E até onde isto irá é uma questão de saber se o governo vai se dar conta que este assunto esta dividindo a cidade. Mas a realidade brutal é que numa cidade onde a notícia é que o exercito agiu incorretamente, e não que o trafico assassinou três pessoas, estamos realmente fora de foco.

domingo, 15 de junho de 2008

Palhaçada? Vai se acostumando...


         Se todos nós falamos o mesmo idioma aqui no Rio, fora os argentinos vendendo colares e pulseiras no arpoador, então por que não existe um diálogo maior entre as classes? Infelizmente, nossa sociedade é segregada em tudo, até em ônibus, onde 50 centavos pode ser a diferença entre até três classes econômicas.
        Me ocorre então que talvez a questão de língua não se define somente por idioma, e sim por uma equação de IDIOMA+CONTEÚDO. Sendo que o conteúdo, talvez, pese mais.
        As sociedades se dividem, irrelevante das políticas de inclusão, e sempre se dividirão. Não importa o que você fala; seja inglês, francês, ou árabe, o que realmente importa é SOBRE o que você fala... como se a divisão entre os tipos de linguagem ( Culta, Informal, e Vulgar) pudesse ser aplicada a conteúdo.
        No caso, existiria um conteúdo culto ( Wagner, Bauman, Costa-Gavras), um informal (Madonna, Kellner, Spielberg ), e um Vulgar (Mc Sapão, Paulo Coelho, Jim Jarmusch).
        Para explorar esta teoria, diga-se que três homens estão naufragados em uma ilha deserta. O primeiro, chamaremos de Helmut um banqueiro alemão de conteúdo culto. O segundo um sociólogo japonês Akira, também de conteúdo culto. E um terceiro, Wanderleison, um caminhoneiro nordestino cujo conteúdo seja vulgar (Se a realidade parece racismo, estamos mal). O que acontecerá?
        Acho que é realístico supor que Helmut e Akira por terem uma cultura semelhante formarão laços inalcançáveis a Wanderleison. Não que ele seria abandonado, mas o seu cânon, e por isso seu conhecimento cultural, o limitaria em muitas conversas. Formando uma barreira cultural. Talvez um exemplo fraco, mas se você entendeu, não canse minha beleza. (como diz minha bisavó)
        É triste essa realidade, até porque Wanderleison deve contar as melhores piadas entre os três, e possivelmente é o mais divertido. Mas as realidades não deixam de ser verdade só por serem desagradáveis, como acreditam grande parte de nossos políticos. 

        Mas por que todo este discurso? Porque se realmente as linhas da segregação de nossa sociedade se baseiam em barreiras culturais, ou conhecimento, então existe uma solução simples para esta segregação: a educação. Se Helmut, Akira, e Wanderleison fossem igualmente educados, eles teriam uma plataforma para discussão ou seja uma base para a integração.
      As notas divulgadas esta semana para nosso sistema de ensino foram um vexame internacional. E para provar novamente a habilidade de nossos políticos, o Ministro da Educação conseguiu sem vergonha na cara expressar felicidade porque aparentemente superamos as metas do MEC para este ano. Mil desculpas por o que vou dizer agora, mas, puta merda! Se esses resultados superam a meta, então talvez o Brasil esteja realmente perdido como dizem por aí. Será que alguém colocou Whiskey no meu café? Será que o jornal em que li esta matéria virou um diário de comédia sem que eu soubesse?
      Quando superamos nossas metas e a melhor nota média do país é um 5, para mim a política de educação está não só falida mas incentivando a ignorância.

domingo, 8 de junho de 2008

Importado com o Exportado


            Vou avisando logo que após esta crônica posso acabar sendo obrigado a entrar em exílio, assim retardando a publicação da próxima crônica. Pêsames. Sei que para alguns não será um grande incômodo, mas espero, como qualquer escritor, que este grupo não seja muito grande.
           Esta semana tem sido repleta de conversas sobre o OMC e a proteção dos alimentos para que o mundo não sofra. Mas no meio de vários discursos eloqüentes dos lideres mundiais, lembrei de uma frase cujo autor me escapa, que sempre surge na minha cabeça cínica quando se trata de economia global: Não existe comunidade global.
           Explicarei para não soar ingênuo. O que a frase questiona é a vontade de governos individuais de fazerem o melhor para o mundo inteiro. No Brasil nem sei se passa por cinismo perguntar se os governos são realmente movimentados por vontades tão nobres no dia-a-dia das maquinas nacionais?
          A verdade é que cada governo joga por si mesmo(e as vezes até por seus cidadãos). Esperando agradar os moradores dos países que representam(alguns mais que outros) com suas atitudes. O que torna uma reunião para decidir como o mundo vai lidar com a falta de alimentos, em nada mais que uma convenção onde o real interesse é “Como que eu vou proteger o meu”. Se não fosse, a reunião duraria meia hora. Primeiro se olharia quanto o mundo produz de cada coisa, depois quanto cada um consume. Uma vez feito, começariam as distribuições proporcionais a preços iguais para todos, sem subsídios ou taxas de importação malucas. Mas o que acaba acontecendo é que todos querem lucrar, e os interesses das empresas falam mais alto que as do consumidor. No final acaba sendo o velho jogo capitalista: Winners and Losers.
          Foi então que me surgiu uma pergunta que não consegui responder. Por que, então, precisamos da comunidade Internacional? Calma não estou dizendo que não deveríamos trocar e aceitar mercadorias estrangeiras como o Iphone (estou doido pra comprar). Mas o Brasil como quinto maior pais do mundo tem solo suficiente para produzir tudo que precisamos aqui dentro. E por acaso tem também um numero suficiente de desempregados, ou empregados em atividades ilícitas que se aproveitados de forma legal, seriam uma força de trabalho gigantesca. Quem sabe podíamos até montar nossas próprias industrias, incluindo as de telefones celulares brilhantes.
           Mas e os salários? Quem vai trabalhar em agronegocio ou em alguma fabrica por um salário mínimo, quando pode ganhar um dinheirão no trafico do Rio? Bom, se o que sobra da arrecadação de impostos fosse usado para incentivar empresas que atuam no solo nacional invés das que funcionam fora do pais (como faz o BNDES que acaba de receber um aumento de 12,5 bilhões de nosso generoso Senado) resolveríamos a questão do salário mínimo em algumas semanas. Claro, não estou sugerindo que nossos impostos sejam usados para motivar a industria nacional e criar empregos. Isto seria um absurdo.(Aviso: Sarcasmo é a forma mais baixa de humor)
          Não entendo como um pais como o nosso pode estar olhando pra fora quando o cenário interno esta tão ruim. Afinal, quando eu pago impostos quero que estes sejam aplicados na manutenção dos espaços públicos, na proteção dos cidadãos, no prover de água e alimentos, e para financiar as instituições publicas, (Administração, Saúde, Justiça). Prefiro deixar para investir meu dinheiro no metro de Caracas (isso mesmo, na Venezuela), como faz nosso sagrado BNDES, quando tudo aqui estiver funcionando. Aí, sim, podemos conversar.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

A real "Inflação"

Pô se eu pegar este dinheiro da bolsa da mamãe ela nem vai se dar conta. E também é tão pouquinho, que nem faz diferença. Se eu pedir ela vai dizer que não e eu quero tanto comprar aquela bola de futebol, que não faz sentido ficar sem- o menino pensou enquanto deslizava os dedos entre as dobras da carteira.

Ah não tem problema colar na prova. Afinal ta todo mundo fazendo e se eu tirar uma nota baixa meus pais vão ficar chateados, ai vai ter conseqüência. Se for pra vir ate aqui todo dia e ficar reprovado só porque não gosto de estudar, não venho mais. É só sentar perto daquela menina com os óculos que sempre presta atenção e anota tudo que no meio da prova eu falo com ela pra liberar- o moleque planejou enquanto escovava os dentes.

Então o esquema é o seguinte, nos vamos vender monografias de faculdade. O João, nosso cabeção, vai escrever os trabalhos e nós vamos vender camisetas pra nos proteger. Assim, o cara que quiser comprar um trabalho no esquema, vai comprar primeiro uma camiseta pelo preço que for pagar no trabalho, digamos 100 reais, e em retorno enviáramos a ele o trabalho de faculdade, e o sortudo ainda fica com a camiseta. Porque a camiseta? Para poder explicara imensa quantidade de dinheiro que vamos faturar nesse esquema. Assim, ficamos limpo, todo mundo sacou?- o rapaz indagou aos colegas de seu lugar na cabeceira da mesa da sala, minutos antes de seus pais chegarem do trabalho.

Esse João esta começando a encher o saco. Ta sempre querendo mais e mais. E dai se é ele quem esta produzindo os trabalhos. O esquema é de todos nós. Todo mundo tem que ganhar nessa parada. E as camisetas estão vendendo pra caraca. Então se esse cara quer mesmo causar problema, que se dane, tem bastante CDF por ai passando fome que faz os trabalhos pela metade do que estamos dando a ele. Por mim nós afastamos desse babaca.- o moço aconselhou logo antes do grupo decidir por se livrar de João.

Tudo no esquema. Casas em nomes de laranjas, caros em nome da mamãe, a vida realmente é bela. Se todos os esquemas entrarem na data este ano, eu vou ter faturado na casa dos 4 mizão. É isso mesmo meu chapa, você é o cara. Você teve que da duro, claro, e algumas decisões foram obviamente desagradáveis. Mas todas necessárias, sem elas não teria chegado aqui. Prestes hoje a ser recebido pela casa. Finalmente, cheguei em um lugar bom. Vivendo relaxado, agora sim, o céu é o limite! -ele refletiu enquanto encarava seu reflexo no espelho do banheiro de sua cobertura sua mulher ainda dormindo no quarto.

Senhor presidente, eu gostaria de aproveitar esta oportunidade para homenagear a mais recente adição a esta casa. Em nosso colega teremos um exemplo de ética e honestidade. Ele sim será uma adição crucial a esta casa. E gostaria de dizer aqui para todos os senhores Senadores que não só o conheço desde os tempos de faculdade quando começamos nossa primeira empresa juntos, vendendo camisetas, empreendimento humilde que levou grande esforço, mas que também confio nele como um irmão e um grande homem, que lutará conosco pelos princípios que defendemos aqui. Os princípios desta Nação.- os homens anunciaram no dia em que ele tomou posse.

domingo, 1 de junho de 2008

Um tapa na Cara...de quem?

Esta semana diante de um novo temporal de acusações de corrupção obviamente verídicas, fomos comparados ao Chicago de 1930. Concorde ou não, não deixa de ser uma comparação forte. Para quem não conhece a historia se trata do gangsterismo de Al Capone. Um criminal admirável, para quem admira essas coisas. (no rio, aparentemente, todos)

Capone atuou na época da lei seca em Chicago, produzindo e distribuindo bebidas alcoólicas. A maioria de Chicago tinha uma empatia ao gangster, por discordarem da lei, inclusive os policiais que se beneficiavam do arrego e das bebidas. Até ai da pra ver uma semelhança com nossa cidade maravilhosa. Mas a diferença esta na dinâmica do problema.

Capone não fazia parte do governo. E embora seus subornos a vários membros do estado serem de conhecimento publico, quando finalmente foi pego pelo jovem Elliot Ness, perdeu um apelo nos tribunais e cumpriu 11 anos de prisão. Ou seja, quando a policia pegou, o Judiciário funcionou, e o bandido se danou (vou virar poeta). Mas é assim que funciona quando alguém é preso, cabe ao Judiciário apoiar ou reverter a ordem. Claro isso no primeiro mundo.

Na nossa terra porem, temos um sistema digamos um tanto diferente, mesmo assim igualmente fascinante. Aqui, o Legislativo pode libertar um homem! Isso mesmo, o órgão que faz as leis, também, aparentemente, pode julgar como elas estão sendo aplicadas. Esqueça aquela besteira sobre balanço de poderes.

Para quem chegou até aqui sem saber do que se trata, estou falando da decisão risível da Alerj de libertar Álvaro Lins. Álvaro como todo mundo já sabe, incluindo meu padeiro que é analfabeto e cego, é mais culpado que um padre num convento as três da madrugada. Parece, inclusive, que os únicos que não sabem disto são os 40 deputados que votaram na Alerj a favor da libertação.

Mas onde estão os nossos Heróis? Onde está o nosso Elliot Ness para arrastar o Capone até a prisão? E mais importante, onde está o nosso judiciário para garantir que ele fique lá?
Sem fazer apologia, existia lógica em Capone. Por mais infrator que ele era, por mais danoso à sociedade que ele pudesse ser, ele não era eleito, não se sustentava com finanças publicas ou as explorava. Ele não era um protetor da sociedade, era cidadão. E nisso Lins, consegue ser pior, pois abusou da confiança do cidadão.
 

Em realidade o caso só fez provar novamente que não existe coerência em nosso sistema. E os eventos desenrolam de uma maneira que nos deixam perplexos. A comparação é forte sim, e Chicago era um cenário cheio de corrupção e violência nos anos 30. Mas foi nesse mesmo cenário que o sistema quebrou o ladrão. Aqui ao invés, parece que o Ladrão infiltrou o sistema. E por isso me pergunto, com quem é a maior sacanagem da comparação: Nós ou Chicago?

domingo, 25 de maio de 2008

Indiana Jones e o Templo Perdido

Esse fim de semana realmente foi incrível para quem, como eu, nasceu na década de 80. Apesar de Iron Man e Speed Racer nas telas, dia 22 marcou o lançamento de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Já fui avisando onde passaria meu sábado. Claro, deixei para ver por ultimo o Indiana Jones, meu herói preferido do Silver Screen. E como muitos da minha geração esta foi a primeira oportunidade de assistir o aventureiro encarar os vilões internacionais no telão. Que emoção.
Tentei evitar qualquer informação prévia sobre o filme para poder apreciar cada segundo com total surpresa. Varias vezes sai correndo de grupos onde o assunto brotava. Mas apesar de meus esforços lunáticos, fiquei sabendo através do orgulho patriótico de meu barbeiro que “sabia que o Indiano Johnys passa pelo Brasil nesse filme.”
Minha cabeça começou a girar. Tantas possibilidades. Tanto suspenso. Como seria? Quem seria o vilão? Comecei logo a imaginar o nosso “Indy” agora envelhecido, passando pelo Brasil. Quantos problemas a desafiar, inclusão social, racismo, economia... Porem, tenho que admitir que esperei o mesmo senso de “atualidade” que outros diretores têm dado aos heróis requentados recentemente (como o heptagenário Silvester Stallone espancando o campeão dos pessos pessados em Rocky Balboa). Tinha até imaginado alguns títulos no contexto Brasil como Indiana Jones e o Labirinto do Cartão Corporativo ou Indiana Jones e o Escândalo do Superfaturamento da Faetec. O que não faltou foi títulos.
Na verdade o que não falta no Brasil, são escândalos e obstáculos para um herói do calibre do Dr. Jones. Mas parece que os heróis não estão sendo produzidos no solo nacional em tanta freqüência quanto nos cinemas. O mais recente garoto propaganda, O Minc, já teve seus primeiros dois planos para controlar o desmatamento barrados, e agora acaba de admitir que vai começar a passar licitações mais rapidamente. Parece brincadeira, mas também o que se espera de um ministro sem terno (Ó xente!). E enquanto o Minc aparece nas capas dos diários vestido de palhaço com aqueles coletes, Cabral, demonstra na pagina dois todo seu talento ao andar de bicicleta. Agora só falta o nosso ursinho, O Lula, começar a fazer malabarismos, enquanto engole fogo, ou água ardente, e teremos um belo circo.
Mas parece que Indiana Jones também não se preocupa muito com a Amazônia. E ironicamente a ultima cena do filme é de Indiana e sua família sorrindo num por de sol enquanto ruínas indígenas explodem, destruindo parte do patrimônio Amazônico. Mas apesar de encaixar bem na atual politica do governo federal de ficar feliz com o desmatamento, tenho que admitir que esperava mais de nosso herói. Na realidade, só faltou o Indiana botar fogo em parte da mata Amazônica e começar a plantar arroz.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Enquanto a Roleta Roda...

O jogo de Roleta sempre foi meu preferido nos cassinos internacionais. Trata-se de uma mesa verde com uma roda roleta e um display de números em cores alternadas entre vermelho e preto. Neste display se colocam as fichas, ou apostas. Também pode se escolher apostar somente nas duas cores. Uma vez as fichas postas na mesa o “Crupier”, (cara que põe a bolinha na roleta) bota pra rolar. Fortunas se fazem ou desfazem na roda, e tudo pode mudar de uma hora para outra. Mas a roda é mais que um jogo. É uma metáfora para a economia mundial.

Digamos que cada apostador seja um país, e cada numero da mesa também. Podemos também ir um pouco mais longe e pensar nas duas cores da mesa como economias centralizadas(controlada pelo governo), e economias de mercado(de livre iniciativa). Nesta mesa, tradicionalmente, cada país apostava pesado em si mesmo, eventualmente colocando algumas fichas em outro numero, nunca em outra cor. O esforço de cada pais servia como lucro primeiramente dele mesmo. Mas a roleta rodou. E a partir de algumas décadas atrás, esta dinâmica mudou por completo.

Na economia moderna os apostadores jogam cada vez mais em outros números. Apesar de cor, procuram visar o lucro potencial. Alguns jogadores apostam em quase todos, estes chamaremos de superjogadores. Nesta metáfora a bolinha seria, claro, o tempo. E com este tempo é que vemos as apostas renderem, ou não. Eventualmente, os superapostadores têm que impor estrategicamente uma cor sobre algum numero, devido ao potencial de lucro. Mas os maiores conflitos de interesse não se encontram entre as duas cores, pois buscam objectivos diferentes, mas sim entre os números de cores similares.

Dizem que ganhamos um grau de investimento. O que isso significa na realidade? Em nossa metáfora seria o equivalente a uma reputação dada a um numero significando que apostar nele é confiável. Mas como que o mesmo pais que foi votado entre os dez piores lugares do mundo para se conduzir negócios pelo ranking do Banco Mundial em 2007, pode merecer agora tal aprovação na área de investimentos? Parece estranho? E é.

Chega de metáforas! A verdade é que o grau de investimento concedido ao Brasil, não é um aplauso mundial à nossa economia. Se trata de uma maneira dos superapostadores conseguirem liberar fundos para investirem aqui no Brasil. Por se tratar de um país emergente, o retorno pode ser bom. (É meus caros "país emergente" nada mais é que uma maneira bonita de dizer que não tem nada) E já que nosso próprio numero se ignorou por tanto tempo, tem tudo pra fazer aqui. E ai, o que isso significa para o Brasil? Investimento positivo? Talvez, mas imagina o que ganharíamos se o investimento fosse feita por companhias nacionais que pagariam impostos aqui.

E enquanto a roleta roda e os apostadores procuram cada vez mais o lucro internacional, onde esta nosso apostador? Infelizmente, no outro lado da mesa sozinho, apostando no dolár.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Tribo TÓNEMAÍ

Recentemente tem aparecido nas paginas dos diários, a Reserva Ianomâmi. Trata se de uma área de 97 km2 demarcada para uso exclusivo, dos ianomâmi (cerca de 3 mil pessoas) , e de acesso impedido à Policia Federal ou as forcas armadas. Estranho? Isso mesmo.
Mas enquanto em uma parte do continente um governo cede terra em quantidades abundantes para uso exclusivo de uma pequena parte de seus sujeitos, em outra, os cidadãos brigam pela separação efetuando até referendos para o direito de se organizar independentemente. (referendo de Santa Cruz de la Sierra)
O fato é que na Bolívia, foi votado recentemente se o estado de Santa Cruz deveria ou não ser autônomo até certo ponto. Basicamente, uma maioria do estado se organizou (isso mesmo gente acontece), e em uma forma de protesto ao Governo federal de Evo Morales, votou se queria continuar sobre o domínio do país. Mas por que esta longa historia de dominio de terra e independência? Bom, depois de ler o jornal do domingo e ver todas as acusações de improbidade e corrupção pensei, “Ora bolas, então deveríamos fazer isto aqui.”
Talvez o estado inteiro é ambicioso demais, mas pelo menos a cidade do Rio. Imagina só. Uma reserva independente do resto do pais! Seriamos do tamanho de Mônaco, ou Liechtenstein, um mero caroço de azeitona na grande pizza que é o Brasil.
Os bolivianos de Santa Cruz acreditam que com a autonomia vão conseguir se administrar de forma mais rápida e eficaz, pois não terão que esperar o governo para pagar seus empregados, ou contratar e aprovar obras. Parece o tipo de solução ideal para um estado que tem 90% da riqueza e ainda caminha como uma economia de quinto mundo. É justamente neste contexto que argumento uma divisão entre nossa cidade e o Brasil.
O único problema agora é como efetuar um voto. O Rio não se reúne nem para manifestar contra o direito de se manifestar! Exemplo: Marcha da Maconha, onde os direitos mais democráticos que temos (de manifestação) foram completamente esculachados, sem a mínima reação do povo.
Mas será mesmo que precisamos de um voto? Perai, a única coisa que precisamos é de uma tribo de índios e o governo nos cederia a terra gratuitamente! Isso mesmo, mas onde encontrar índios aqui? Talvez nem precisamos. Para muitos a tribo dos ianomâmis nem existe, especialmente já que nenhum dos índios assentados na reserva se chama de ianomâmi, e de fato pertencem a quatro ou mais tribos diferentes. Então, esta decidido, meus caros cariocas, se alguém te perguntar, você não é mais negro, branco, ou europeu. Só precisamos fingir um pouco. Daqui em diante somos todos da tribo TÔNEMAÍ. Inventei agora mesmo. A tribo TÔNEMAÍ: unidos para um Rio de Janeiro independente.

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Recentemente o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, sugeriu que se cortássemos o leite e feijão das estatísticas a previsão de inflação do Brasil abaixaria ,6%. Como se o café com leite de manha e o feijão de almoço fossem itens dispensáveis à cultura brasileira. Não sei não, acho que precisamos mesmo é cortar a Mantega.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Definido

Definido
Pedro Widmar

Este natal já sabia o que ia ganhar. Pedi a todos que contribuíssem para me dar um dicionário Houaiss. Desde vê-lo pela primeira vez fiquei encantado. Adoro livros. De toda espécie, e pra quem acha que não se pode ler um dicionário, digo pfff. Mas fiquei decepcionado ao examinar a publicação pois sempre tive a mais alta opinião de sua integridade. E admito que por isto não desisti dele ao ver que algumas definições estavam incompletas enquanto outras estava plenamente erradas. Atribuo estes erros de definição em maior parte a serem definições que apesar de caberem nos dicionários internacionais não se conduzem com a realidade do Brasil. Porem, Submeto então minhas sugestões para aprimorar a edição que categorizei em duas partes: definições acrescentadas e definições re-escritas.

Definições Re-escritas

Cidadão- Um ser sujeito a todas as imposições do governo, sendo elas financeiras ou proibitórias, que em nenhuma hipótese deve se beneficiar de algum de seus direitos. O ente apesar de reclamar obsessivamente dos problemas infra-estruturais do seu sistema político, não deve se submeter a qualquer esforço para muda-lo. Predominante na vida do ente deveria sempre estar o futebol.

Político- Um ser cuja eleição democrática o determina impunível pelas normas sociais, e que é encarregado de agir nos interesses próprios para garantir o enriquecimento desproporcional à quantidade de trabalho durante seu mandato. Este apesar de ter algum conhecimento das realidades do território ao qual governa, não deve se aproximar desta realidade. Por isto deve ser remunerado de maneira que o deixe viver fora dos padrões de seus sujeitos. * mais facilmente comparado a nobreza do que com funcionário publico.

Imposto- Carga tributaria imposta a cidadãos (excluindo sempre políticos e seus parentes) que é distribuído entre setores do governo. A carga monetária uma vez distribuída deve ser destinada ao melhoramento de instituições publicas. Este sistema se baseia numa relação monetária em que por toda parte digamos (X) que se encaminha à instituição, uma certa parte (Y) deve ser depositada diretamente numa conta off-shore para o uso do político que gerencia aquela instituição e outra parte (Z) para a conta de quem a depositou. **Normalmente a relação entre as três partes funciona de tal modo. Z+Y= X/2

Melhoramento- uma espécie de publicidade escrita ou verbal que demonstra as fartas melhoras de algo, independente de seus reais índices de progresso ou se de fato o mesmo existir.

Responsabilidade- Carte-Blanche.

Ordem- Caos incontrolável devido à falência e corrupção institucional das instituições publicas. Uma espécie de anarquia em que todos estão sujeitos ao que os armados quiserem. A idéia vem mão em mão com progresso.
Progresso- Estagnancia demarcada por ma distribuição de bens. A teoria de progresso deve sempre ser agrupada com publicidade ao inverso. *veja melhoramento.

Vida- Sobrevivência.

Definições Acrescentadas

À definição de MULTA acrescentar : de característica monetária, imposta sem nenhum efeito repressivo ao comportamento que pressupõe alterar.

À palavra CADEIA acrescentar : Casa e comida garantida aos custos da sociedade onde criminosos aprimoram sua profissão através de confraternização com outros presos.

À palavra POLICIA acrescentar : Profissão que providencia dois ou mais salários, dependendo da disposição do individuo. Deve ter o mínimo de conhecimento das leis que impõe e em caso de falhar a este requerimento, deve fingir o tal para fins lucrativos.

Por enquanto não tive chance de ver mais que isto, mas com tempo espero aumentar minha lista de correções para serem mandadas à publicação. Em esperança de que as palavras do livrão de referencia sejam mais fieis às realidades sociais, convido todos a adicionarem suas definições mandando um e-mail para o Houaiss. Ou pelo menos espalhando esta crônica

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Pela...Qualquercoisa!!!

Viajando pela Europa depois de sair do Brasil e ter morado nos Estados unidos, é difícil dizer em que ano estamos. Recentemente andei lendo vários clássicos da literatura inglesa. Igualmente abordei alguns dos trabalhos brasileiros mais requeridos. Mas pelos espectros sócio-políticos que já vivenciei na minha pouca vivencia tenho certa duvida sobre em que fase da humanidade vivemos.
Muitas coisas não mudaram. Não só em nossa fabrica de letargia (Brasil), quanto no resto do mundo. Ainda se preserva o sistema de classes. Alta, media, baixa. Porem por nomes mais suaves as vezes até poéticos pois têm o objetivo de amenizar indignações. Ainda se encontra os mesmos pecados característicos nestas classes. E a observação de Orwell em seu livro de mais impacto, ‘a única classe sem a menor chance de mudar sua situação é a classe baixa’, ainda se mantêm.
Nosso novo líder internacional, que pela primeira vez na historia do mundo podemos realmente afirmar a existencia de UM líder internacional – graças aos avanços na area de comunicação e o desejo pela globalização- usa os mesmos métodos que eram comuns entre as monarquias e reis do passado. Isto escrito por vários dissidentes da historia e também pelo mesmo Orwell em sua obra supostamente fictícia.
As guerras de hoje também mudaram. Isto devido à cultivação de uma solidariedade sobre as virtudes. Mas somente nas classes baixas. Enquanto nas guerras de hoje o objetivo continua sendo a busca de novas terras e dinheiros, a razão dada pelos atos é sempre uma de moralidade. Governos se atrapalham todos para garantir que seus povos acreditem no bom que a guerra ira fazer. Penso- Por que? Sera que na apatia geral em que convivemos as razoes mais duras causariam consequencias?
Nos mundos bárbaros pré ou não católicos, uma justificativa baseada na moralidade ou virtude seria considerada um desvio de bom senso. Pois nestes tempos chamavam uma ‘espada de uma espada’ e só existia duas razoes por guerra. A primeira seria um insulto contra a honra de um rei ou sua família. A segunda o desejo de mais terras ou dinheiro. Enquanto nos dias de hoje as razoes continuam a mesma a justificativa é outra. Ex:
- Sabe João estamos em perigo de acabar o nosso estoque de picolé.
- Serio?
- Pegue sua espada e vai destruir a loja do vizinho e pegar os dele.
- O que? Não posso fazer isto. Não seria certo.
- E porque?
- Bom, diz bem aqui no tableto dos mandamentos- “Não deverás roubar”. Talvez ele divide os picoles dele conosco.
- Ah mas meu caro João nos não estamos fazendo isto para roubar os picolés dele.
- Não?
- Claro que não, nos vamos atacar-lo como castigo pois ouvi dizer que ele é um mentiroso.
- Mentiroso? É mesmo?!
- É!
- Pois então vamos lá! Pela verdade!!!...
Nosso mundo gira diariamente. Cada ano os prédios ficam mais escuros e as caras mais velhas. Mas não sei dizer com nenhuma certeza que alcancamos algum progresso. Também não posso especular que tivemos qualquer salto para uma nova fase historica. E enquanto duvido ate da data em que nos encontramos, esta começando a parecer bastante com 1984.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

O quebra-cabeças

Entreouvido com impacto pelos quartos corredores e quintais da vida;

- O menino vai ser escritor.
- Como assim Otavio? Porque diz isto.
- E pra que não dizer, ele vive contando historias.
- Não leve tão a serio.
- Quem não ta levando a serio é a Mônica.
- Ela é mãe Otavio. Você espera o que?
- Não estou falando como insulto mas chega a ser ate uma falta de respeito. Somos os avos dele. Ate pra nos não tem uma verdade. Ele daria um bom escritor. Logo agora lhe perguntei como tinha conseguido chegar em casa tão cedo. Ele me contou uma historia tão detalhada de como ele tinha ganhado permissão por seus feitos acadêmicos e por isso tinha sido liberado para cursar o que quisesse e quando quisesse que quase cai na dele. Se não tivesse só nove anos teria até acreditado...


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- Não acredito. Mônica nosso filho não sabe contar uma verdade.
- Calma amor não se aboreca.
- Não estou aborrecido. Pra ser franco estou impressionado. Ele cria mundos tão complexos e fabulosos que ate quero acreditar. Inclusive a única maneira que sei que esta mentindo e porque tudo se encaixa tão bem.
- Ele é sô um menino.
- É mas um dia será homem. E ai? O que fará da vida. Ele parece que se perde nas próprias mentiras. Vive uma mentira!
- Mas são boas não são?
- Isso não contesto....

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- Eu chamei os senhores aqui para falar sobre o comportamento de seu filho.
- As notas estão caindo doutor?
- Sim mas é pior que isso. As notas estão baixas mais eu acho que este não é o colégio para o seu filho.
- Como assim? Ele esta sendo expulso? Eduardo meu deus ele esta sendo expulso.
- Calma amor. Professor meu filho esta sendo expulso?
- Não senhor. Senhora desculpe deixe eu explicar melhor. O seu filho tem um talento nato. Ele tem uma capacidade de usar a criatividade para alterar a verdade que me assusta. Se fosse os senhores botaria ele em algum lugar que ele possa cultivar isto para o bem dele.
- Que tipo de lugar professor?
- Eu sugeriria uma escola virada para a arte. Talvez a literatura...


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Quando a caneta do menino tocou o papel pela primeira vez ele tinha nove anos. Mas ainda tinha sangue muito quente para dedicar ao tempo necessário enfrente ao papel. Não voltou a escrever ate os vinte três. Mas cada palavra, cada mundo que criava beirava à perfeição que todos nos desejaríamos vivenciar. A única coisa que nunca fez, nunca conseguiu fazer foi aperfeiçoar o mundo em que vivia.

domingo, 3 de junho de 2007

Dois Gregos

Mais de quinze anos separados pela discordância filosófica que unificou os dois, Aresto voltou à porta de seu velho amigo. Pauto teria sido seu professor por muitos anos até que o intelecto nato e a tutoria de Aresto os igualou. Por anos as conversas duraram horas e as brigas ainda mais. E a interação os fazia contentes. Quando finalmente a discussão chegou à essência do homem, as diferenças fundamentais não permitiram que a interação continuasse. Mas agora uma década e meia mais tarde, no interesse de seu pai, a filha de Pauto teria chamado Aresto para conversar com ele. O velho só assistia televisão o dia inteiro. Quando entrou no quarto Aresto nem foi cumprimentado, como se fosse esperado. Mas os sensos de Pauto estavam intactos.
- Não tenho nada a dizer a você.
- Bom dia pra você também Pauto.
- Eu não vou conversar com você.
- Mas você poderia pelo menos me olhar.
- Estou ocupado.
- Tão ocupado que não pode nem prestar atenção em minhas palavras? Você que adora palavras, e tem tanto prazer em discutir semântica?
- Não tente me enganar Aresto. Você esquece que minha voz já foi mais alta que a sua.
- Talvez. Mais a minha repercuou o mundo.
- Vai ser cheio de si assim na casa de sua mãe. “Minha repercuou” ... se Narciso não tivesse existido você seria um deus grego. Seu ingrato.
- Não, ingrato não. Se fosse ingrato não estaria aqui agora. Soube que você se trancafiou aqui neste quarto. Tirou até a cama , e só fica assistindo televisão.
- E você veio aqui pra me falar o obvio? Eu acho que não. Eu acho que você veio ver se eu tinha descoberto algo novo. Mais alguma coisa que poderia roubar de mim e usar.
- Você esta maluco! E por que assistir esta merda? Você não sabe que esta é a maior forma de controle sobre a mente possível? Que só faz afogar o individuo?
- E o que você sabe sobre o individuo? Fascista.
- Calma Pauto.
- Calma nada, não pretendo aprender filosofia de um charlatão.
- E eu não pretendo te ensinar.
- Então porque esta aqui? Pra me falar que a televisão é o maior instrumento de promulgação e controle das massas. Que a morte da sociedade clássica nasceu com ela e que ajuda a piorar o paradoxo entre o individuo e a sociedade, uma vez que o individuo precisa dela para se auto definir mas a sociedade mata o individuo. E que esta idéia nasceu com os estudos culturais e os aparelhos de mídia cultural? Bom, não precisa. Eu sei tudo isto. Inclusive fui eu que te ensinei tudo isto.
- Eu não vim pra isto. E nem concordo com isto. Não existe nenhum paradoxo nisto. É uma simbiose necessária. Nem acredito na morte da sociedade. O que vim te falar é para parar de se esconder aqui. Olha pra lá. Uma janela. Uma simples janela. Lá fora tem um mundo. Arvores. Pessoas. Crianças.
- Aresto. Você não sabe o que é minha cabeça. Não pode pretender agora me ensinar o que é viver. Eu passei minha vida inteira ignorando o mundo para analisar-lo. Eu li, escrevi, pensei, sofismei. Não sei mais o que é quebrar estes hábitos. E pior, não posso exercê-los.
- E porque não?
- Você conhece a historia de Prometeu? O mortal que roubou o fogo dos deuses e trouxe para o povo. O fogo era a luz, a luz que ele trouxe ou o esclarecimento foi a razão de todos os problemas do mundo. O conhecimento foi o que o escravizou.
- É mais ou menos isto. Mas você esta esticando um pouco.
- De qualquer maneira, o que quero dizer com isto é que o mundo me dói. Não consigo mais assistir estas coisas que me doem tanto.
- Como te doem?
- Eu sei o sofrimento que aquelas pessoas vão passar ou estão passando. Eu sei que aquela arvore não vai ficar ali. Vai ser cortada. E com isso não tenho a coragem de a olhar. Nesta televisão eu sei que por mais ridícula que seja a maioria das coisas vão terminar felizes. É uma ficção, mais pelo menos não sofro com ela.
- Mais você é um homem de ciência Pauto, como pode viver assim se enganando?
- Você nunca me entendeu. Eu não sou um homem de ciência. Você é. Eu sou um homem de necessidade. Queria sempre entender o mundo para melhorar-lo. E as teorias que você criou, as que repercutiram o mundo, eu as pensei, mas descartei. Elas não deram em nada. Por isso temos a televisão.
- Não entendi. Quero dizer entendi o insulto. Mas não o resto.
- Não te ofendi. Só quero dizer que a televisão só tem sucesso porque o mundo é imperfeito. Só por isso que corremos para nos esconder na ridicularidade da televisão.
A conversa assim foi por horas. Os dois como antigamente debatendo e tentando provar suas convicções. E depois de vários insultos e brigas o destino os forçou a encontrarem um meio termo. Ao sair Aresto tinha quebrado a televisão. E Pauto, pos o que restava da moldura da tela em volta da janela.

 
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